PostHeaderIcon Momentos mágicos

Não ouvi, nem vi. Contaram-me. O diálogo foi transposto em forma de monólogo a duas vozes, uma falando, só uma falando em um processo de comunicação sem o outro. Melhor: de um lado, o narrador que me contou a história; de outro, um ouvinte. Ambos convictos de suas respectivas necessidades: a de relatar e a de entender e acompanhar o caso.

A personagem é uma velha conhecida. Não tão velha, pois completou recentemente seis anos. Uma garota viva, alegre, curiosa que chegou ao momento mais mágico da vida: encontrar o significado das palavras escritas e descobrir que elas podem ser lidas e, melhor, entendidas, criadas e recriadas ao sabor das leituras e da imaginação. Verdadeiro milagre…

Às voltas com o processo de alfabetização, que já vinha sendo construído em anos anteriores, lá pelas tantas descobriu que havia a letra cursiva e a letra imprensa, a de forma, essa última já costumeira em sua pequena vida escolar. A letra cursiva, no entanto, despertou algo próximo da perseguição em busca da perfeição. Bordado o a, chaga-se ao z em um caminho de voltas e trejeitos que mais a encantavam e faziam brilhar dois olhos espertos, emoldurados por um rosto redondo em que esvoaçavam cabelos lisos, escorridos e castanhos.

Continuando. A jovenzinha queria porque queria escrever, dar vazão às suas mais recentes necessidades de expor ao mundo suas virtudes. Escrever…

Colocou sobre a mesa da sala uma folha de papel novinho e uma coleção de lápis preto. A professora havia dito que lapiseira não era apropriada para o início da escrita. Então, após a execução da tarefa, a menina chamou a mãe e disse com a propriedade de um doutor

— Quero que você diga como se escreve M E L A N C I A

A mãe pôs-se a dizer “M”, “E”, “L” e foi logo interrompida como se estivesse cometendo o maior sacrilégio de todos os tempos. Furiosa, a menina disse:

— Não, mãe, não quero assim… Eu quero que você me dite em letra cursiva”

E assim foi dito.

Celia A. N. Passoni

 

PostHeaderIcon À maneira de uma história

Na cidade pequena, não havia muitas oportunidades. O rapazola crescido ou trabalhava no comércio ou trabalhava no comércio. Ah, havia também o banco, o único da cidade, o BB. Ser gerente era o apogeu, o máximo a que um pobre coitado poderia chegar.

Marco Antônio – o nome foi uma homenagem ao grande romano – cresceu, estudou até o ginásio, tentou carreira no BB e como caixeiro. Nem um, nem outro. Desempregado, sem futuro na cidadezinha, decidiu tentar a vida em São Paulo.

Deixou uma noiva, prometeu voltar dentro de um ano, já com emprego garantido, para buscá-la. Realizariam o casamento e viveriam felizes para sempre.

Foi o que ele jurou… De beijos em crucifixo, promessas e palavras…

Raimunda Sueli aguardou a chegada do noivo por um ano inteiro, e depois outro e outro. Derramou lágrimas enquanto ia bordando seu pão de cada dia. Ela sobrevivia de algumas costuras e poucos bordados. Algumas vezes as lágrimas não a deixavam ver os pontos e ela, mesmo assim, procurava esconder sua vergonha da vizinhança. No fundo, ela sabia que quem partia jamais voltava e ela estaria condenada a ser uma solteirona.

O rapaz se perdeu na cidade grande, gastou suas poucas economias nas casas de jogo, nos bordéis e na minguada refeição que fazia uma vez por dia, para gastar menos. Emprego, nem pensar, primeiro porque por aquelas paragens não havia, e depois, pensando bem, Marco Antônio não queria trabalhar. Ia vivendo de um biscate e outro, aproveitando a vida como podia, esquecendo cada vez mais a pequena cidade.

O tempo passou e Raimunda Sueli sentiu os primeiros sinais do tempo passando. Os cabelos foram pintados pelo branco do esquecimento, a pele perdeu o viço e uma penugem sob o queixo denunciava que não existe perdão para a idade.

No entanto, ela esperava ainda debruçada sobre as costuras, esperava um milagre, certo príncipe chegando e a roubando daquela monotonia implacável.

Nunca ninguém soube do paradeiro do noivo. Dela somente se ouvia o silêncio, os olhos perdidos no horizonte, à espera de um futuro que teimava não vir.

Inesperadamente, o impossível aconteceu.

Nunca, por ali, havia chegado um carro igual. Nunca, por ali, um moço tão belo havia aparecido. E ele a contemplou, enamorado. Raimunda Sueli percebeu que ele havia se apaixonado pelos seus olhos tristes, pelas suas mãos fracas, pela sua pele enrugada, por sua boca frágil.  Ele a amava, desinteressada e arrebatadoramente.  Seu príncipe havia chegado para arrebatá-la de sua angústia.

Na noite em que ia realizar seu grande sonho, perdeu-se em uma névoa esbranquiçada, debruçou feliz sobre o bordado e jamais retornou.

Celia A.N. Passoni. 11 outubro de 2011

 

PostHeaderIcon Tarsila no céu

A cachorra chamava-se Tarsila, nome dado a ela em homenagem à filha mais ilustre de Capivari. Inteligente, ágil e, sobretudo, simpática, acompanhou o casal desde o começo do namoro. Foram dias felizes. Passeavam, corriam e brincavam, enquanto o tempo passava. E o tempo passou. O casal teve dois filhos e a família conviveu em paz, felizes, como os adesivos de carro.
Desde pequenos, os filhos faziam-na de trampolim, de travesseiro, de bola de futebol, de abanador. Puxavam suas orelhas, deitavam sobre sua barriga, faziam aqueles carinhos meio marotos, que só os pequenos sabem fazer. Tarsila mantinha a calma. As crianças eram sua prole, e ela as amava. Mas ela foi envelhecendo, perdeu o pelo, teve tumor e, para completar, uma doença na pele. Já quase não se levantava, apenas cheirava. Seus olhos baços não contemplavam mais os entes queridos. Estava quase cega. Mesmo assim, encontrava forças para fazer alguma graça, saudar os espevitados quando chegavam da escola, no final da tarde. Marido e mulher preocupavam-se com um final que se aproximava, mas mantinham-na sob constante observação, veterinário, banhos e tosa, alimentação especial…
Tarsila gostava do final da tarde, era o seu momento, o sossego, a calma, a felicidade tranqüila no tapete da sala. A velhice foi crescendo dentro da vontade de viver e a morte chegou, irremediavelmente.
As crianças ouviram pela segunda vez a palavra fatídica. A velha bisa foi embora algum tempo antes, com seus noventa e tantos anos. A cachorra foi plácida e sem sofrimentos em uma tarde fresca. Foi sacrificada no veterinário.
A mãe procurou explicar a morte da melhor maneira possível, disse que a cachorra gostava tanto da bisavó que foi ao encontro da velha no céu. Duas velhinhas queridas estavam lá em cima, além das nuvens, além do azul.
O menino não se conformou. Já com saudades e com um bocadinho de revolta tentou argumentar com o pai, homem alto e forte, por que a deixaram subir. Tão sábios e inteligentes, deveriam tê-la segurado pelas pernas, já que o rabo havia sido cortado quando Tarsila nasceu.

Curitiba abril 2011

PostHeaderIcon Vendo o tempo passar

Enquanto o tempo passa… fico só e contemplo a janela. Do outro lado da rua há outra e mais outra, uma série de janelas perfilam em tons pouco poéticos que marcam a cidade grande.
A imagem é comum. Pergunto-me: para que serve uma janela? Elas supõe a existência de dois mundos, um do lado de cá, uma casa, um quarto, um ambiente qualquer. Outro, do lado de lá, uma rua, um espaço amplo, um acontecimento, outras casas, outras vidas, outros mundos. Aparentemente são sombras opondo-se à luz, são ambientes contra imagens turbulentas. O que esperar de tantas contraposições?
Mas, vamos mudar de posição. Contemplo meu mundo, estando fora dele. Meu interior, minhas recordações. O que eu guardei dos anos vividos? O que ainda guardarei?
Descubro-me no meio do caos, subdividida entre o que poderia ter sido e o que não sou. Observo os que estão em volta, e constato quantas são as possibilidades de vida diferentes e inconsequentes, sem preocupações, sem ansiedades de um para outro lado.
Acendo a luz de um abajur e vejo pequena nuvem de fumaça que contrasta com o frio noturno. Entre um ato e um entreato, sinto-me perdida no meio de uma plateia surda e infeliz, que espera avidamente o espetáculo na expectativa de vir a encontrar no palco um sentido para sua existência.
Fujo via internet, investigo possibilidades no Google, no Youtube… Abro uma página aleatoriamente e encontro mil outras para serem abertas. Uma pequena lição escolar do diagrama da árvore, um leque em constante movimento. Investigo meus e-mails, pretensamente individuais e encontro muito mais propaganda que em um programa de televisão. Ah, sim, esqueci-me das redes sociais, uma comunidade de amigos virtuais que são tão amigos quanto virtuais. A solidão com amigos virtuais deve ser menos arrogante.
Volto para meus pequenos afazeres, ler um texto em inglês para ver se domino o maldito idioma. Ler um conto em francês para tentar revisitar os grandes clássicos. Mas continuo inconstante, imatura diante do desafio e prosseguir.
Acho melhor ler o horóscopo.”Não desconte nos outros suas incapacidades…”
Procuro um ombro amigo para desabafar minhas frustrações. Ofereço descontos em desajustes acima da inflação.
Acho melhor acabar com essas asneiras e olhar pela janela. O tempo está cinzento, não chove, o ar está uma calamidade. O jornal recomenda cuidado com eventuais problemas pulmonares e, é lógico, não praticar esportes devido a falta de umidade do ar.
Que bom! Volto a ler os jornais, meus companheiros de preguiçosas tardes em que frustro a consciência clamando por atividade física. Dedico-me de corpo e alma ao relaxamento engordativo. Médicos do mundo, uni-vos. Precisamos recuperar o ócio, o melhor de todos os remédios, mas, primeiro, criem uma pílula para emagrecimento imediato.
Saudações do lado de cá da janela. E que se salvem as duas torres reerguidas em algum outro lugar…

São Paulo, 11/09/2011

PostHeaderIcon Mais um capítulo

Agosto finalmente estava chegando ao fim. Havia sido um mês de grandes dificuldades. Acabara uma reforma terrível que lhe comera as poucas economias. E, ademais, continuaria pagando por mais alguns meses dívidas contraídas com cartões de crédito e, até com os filhos, pois havia pedido algum emprestado. Esperava ansiosa que algum dia aquilo teria um fim, pois já estavam no final do mês e a contagem era regressiva. A única vantagem é que elas (as dívidas) iriam diminuir gradativamente. Cada centavo haveria de ser uma conquista.
Ela estava vivendo uma situação um pouco anárquica. O tempo passara e não via solução imediata para a crise, não a europeia, nem a norte-americana, mas a sua própria. Egoísmo à parte, tornara o epicentro de sua catástrofe pessoal. Tivera, inclusive, de recorrer às poucas economias que vinha guardando na Caixa, fruto de um restinho da aposentadoria minguada que herdara de um processo absurdo de partilha a que havia sido submetida ao final de um percurso de 25 anos de trabalho.
Ficava imaginando o que aconteceria se deixasse efetivamente de trabalhar. Aliás, constatou que trabalhar era uma coisa, receber pelo que havia trabalhado era outra bem diferente. Outra constatação mais dura ainda: trabalho e remuneração decididamente não combinavam. Seria bom ter fama, saber vender seu valor, fazer propaganda de tudo o que já produzira, e ela achava não ser pouca coisa.
Não conseguia alardear o quanto era eficaz, mas gostaria que os outros reconhecessem seu valor, agradecessem sua colaboração e a recompensassem com um muito obrigada, valeu, bom trabalho… Infelizmente, os outros não a reconheciam, aliás, já fora bem dito que “o inferno são os outros”, melhor, tantos outros que viviam em seu entorno. Tentava listar tudo que estava sob sua responsabilidade, andava desanimada, sem vontade de produzir, mas tentando escavar um pouquinho mais do que lhe restara da antiga e vibrante capacidade de imaginar educação, bolar exercícios, explicar teorias, pensar estratégias de leitura, de escrita, de… Eram milhares de livros que consumia para que viessem desdobramentos de boas técnicas para produzir, produzir, produzir. E o retorno? O eterno retorno, esperado mas postergado.
Pensava em quantos estariam sendo educados pela sua pedagogia. Quantos poderiam ir pelo mundo, desdobrando conhecimentos adquiridos pelos seus ensinamentos? Seriam magistrados, seriam banqueiros, seriam doutores? BAHHHH
Para desanuviar, foi ao cabeleireiro, pintou as unhas, cuspiu alimentos inúteis, escarrou os restos das deglutições passadas. Era preciso ter paciência, tomar calmantes, queria espiar bailinhos adolescentes, sentir vibrar a emoção de uma criança diante de um brinquedo novo. Era contra calmantes, contra drogas, contra uma porção de coisas que divulgam como “isto ou aquilo são o melhor de tudo”…
Mas estava ali para ler uma história. Uma história que começara há muito tempo e que perdurara, sem motivos transparentes, até os dias de hoje.
Virou a página do livro e, inesperadamente, seus pensamentos a traíram e voltaram para um outro reconto que bem poderia ter como título “mais um capítulo”, pois começava com um certo agosto que havia sido um mês de grandes dificuldades…
Ela nem sequer pode fechar o livro. Foi obrigada a chegar até o final de mais aquele capítulo que teimava retornar à sua memória… Recordações de um agosto que só chegaria ao final quando houvesse a perspectiva de um setembro, um setembro que teima em nunca chegar.

Setembro 2011

PostHeaderIcon Alucinações

Meu Deus!
Por que me fizeste tão fraco
Se sabias que eu era humano?
Por que me disseste tão pouco
Se sabias que estava pronto para escutá-lo
Por que não me mostraste as belezas do mundo
Se sabias que meus olhos só viam mazelas?
Por que não me fez sentir o toque da seda
Se sabias que de minhas mãos só brotavam urtigas?
Por que não me deste o dom do canto
Se sabias que eu precisava sentir a voz da natureza?

Agora o tempo passou.
Sou surdo, já não ouço os apelos da vida
A vida que se esvai a cada balanço infindável
Do relógio sem pilhas.

Agora a memória se dilui
Quero lembrar, mas não há lembranças
Quero ouvir, mas não existem sons
Quero ver, mas as belezas se esconderam
atrás de todos os pensamentos

Só posso constatar
Sou humano…

PostHeaderIcon Matemágica

Não se sabe como, nem por que, mas o menino surgiu quase do nada fazendo malabarismos com os números. Era uma infinidade de continhas, com os dedinhos gordos e a voz rouca. Dizia
— 4 mais 2, 6. 3 + 5, 8…
Os sinais + e + ele desconhecia, mas desfilava possibilidades de combinações diversas: 3 + 3, 2 + 4, 3 + 2, e assim sucessivamente.
A mãe, na saída da escola, foi parabenizar a professora por ter despertado no garoto o interesse para a aritmética. A professora, por sua vez, respondeu que as crianças da sala estavam aprendendo somente os números decimais, condizentes com a faixa etária e ela não havia dado noção alguma de ”operações aritméticas. Ela ia, justamente, perguntar aos pais como surgiu tão repentinamente o interesse do menino pela soma.
O pai, em algum momento de sossego, resolveu colocar um ponto final na história e perguntou se ele havia aprendido com alguém aquelas somas. Afinal, ele já estava grande, pois em breve iria completar cinco anos.
O menino, então, respondeu:
— É claro, pai. Não aprendi com ninguém. As contas já estavam todas no meu cérebro e saem sem eu mandar.
E foi encerrada a conversa com a mágica de um cérebro em ebulição.

Junho 2011.

PostHeaderIcon Coração despedaçado

Houve um contratempo. A cirurgia marcada para quinta-feira foi antecipada. Seria realizada na terça-feira e era necessária a internação do pai às 7h. Como as crianças precisavam de atenção e a mãe estava às voltas com o pai, a avó deslocou-se rapidamente. Chegou na segunda-feira. Dormiu com os netos, apertada no meio da cama, pois nenhum deles se dispunha a abrir mão de um lado da avó querida.
Feitas as trâmites de praxe, a cirurgia transcorreu serena e após breve período de recuperação, foi a vez de o pai voltar para casa. Festa, felicidade total. Agora a família estava novamente reunida: mãe, pai, Laura e Henrique. Havia ainda um outro e mais recente membro na família, um cão (zinho) chamado Bolt.
Tudo estava dentro do previsto e como as coisas transcorriam calmamente não havia mais necessidade da avó. Ela partiria na sexta, no voo das 10h e as crianças ficariam divididas entre as atenções dos pais e a escola. A avó materna chegaria na mesma hora em que a avó paterna tomaria o avião.
Madrugou e lá pelas horas curtas da manhã, houve um contratempo – o pai precisou retornar ao hospital. Um ponto da cirurgia rompera e seria necessária nova internação. Em consequência, a avó paterna não voou, a avó materna chegou e os netos não conseguiam entender bem aquela proliferação de avós em pleno período de aulas. Uma verdadeira dádiva dos Céus!
Ao ver que a avó paterna não havia partido e a avó materna chegando, Henrique exultou. Chegou perto das duas e, sem nenhum constrangimento, declarou seu amor incondicional por ambas
— Vós, quando vocês partem, meu coração fica despedaçado. Só depois junto os caquinhos. Henrique pronunciou despedaçado apreciando cada um dos sons que eram lapidados por sua boca.
Em nenhuma língua do mundo uma declaração de amor poderia ter sido feita com tanta magia. Nós avós, somos gratificadas com a espontaneidade e o carinho de crianças maravilhosas, sem as quais o mundo perderia sua graça.

Abril 2011

PostHeaderIcon Argumento de autoridade

A menina tinha um problema alérgico. Algumas vezes passava meses sem ter vergões, mas, eles retornavam triunfantes depois de passarem amortecidos. Foi o que aconteceu na quarta-feira.
O tempo estava seco. A umidade do ar pouca, quase beirando o desértico. Começou com um vergão no olho. Depois espalhou-se pelo corpo. A hipótese de conjuntivite já havia sido descartada quando apareceram os vergões pelo corpo. A hipótese de escarlatina havia sido descartada porque não havia outros sintomas. Nada de febre, nada de indisposições, sem qualquer alteração na rotina diária.
Como não havia risco de contágio, a menina foi para escola. Mesmo porque já havia passado o pior da vermelhidão. Somente o olho apresentava os resquícios do problema.
Brincou, fez compenetrada a lição, conversou com os amigos, fez as atividades de rotina e eis que, bem na hora do recreio, a vermelhidão voltou com toda sua força.
A professora, preocupada, chamou uma inspetora de alunos, para levá-la até a coordenadora e, assim, tomar as devidas providências. No caminho para a sala da temida Professora Glória, a inspetora, Dona Ana Sueli, foi conversando com a menina, procurando ver o que ela estava sentindo e se havia algum outro mal-estar.
A mãe foi chamada e ambas dirigiram-se ao pronto socorro. Diante do quadro aparentemente grave, o medico apareceu rapidamente, fez os exames de rotina e deu a primeira dose de um antistamínico e diagnosticou: ALERGIA.
A menina olhou bem para o médico e constatou que o diagnóstico dele nada acrescentava à sua expertise uma vez que a DONA ANA SUELI já lhe havia dito que era um caso tipico de alergia.
Nesse momento, a mãe percebeu o que era “argumento de autoridade…

Setembro 2011

PostHeaderIcon Sorte grande

Não chegou a mim diretamente. A história foi relatada por uma amiga que disse ter ouvido no noticiário de uma rádio ou visto na TV. Mas reconto, colocando um pouco de minha imaginação para dar sentido à história.
Loteria: alguém sempre ganha. Um homem remediado para pobre comprou, com o resto de troco do supermercado, um bilhete, inteirinho, de extração especial, prêmio dobrado. Por pura sorte o bilhete foi premiado.
Para não alardear o fato, o homem reuniu os parentes para comunicar algo muito ruim. O termo utilizado não foi muito bom, já espantando cunhados e primos mais distantes.
Com poucos presentes – dois tios, dois sobrinhos, dois filhos e dois primos e a ex-mulher – comunicou que estava gravemente enfermo e, para dar prosseguimento a alguns exames que o convênio não cobria, precisava de dinheiro emprestado. Na verdade, estava à procura de algum tratamento de ponta nos Estados Unidos.
Os parentes entreolharam-se e, um a um foram dando desculpas: a escola dos filhos, os livros da filha, as roupas, os sapatos, o custo de vida… e outras coisinhas mais.
Somente um dos primos, nem muito chegado a ele, prontificou-se a emprestar o dinheiro necessário para a passagem. Dois mil dólares e alguns quebrados. Nem rico, nem pobre, o parente só estava sendo prestativo. Prontificou-se a pagar não todos os exames, nem custear toda a viagem, mas oferecer alguma coisa que pudesse servir de apoio para a aflição do primo de terceiro grau. Terceiro grau!, sim. Ele era filho de um primo distante e, embora tivesse mulher e filho, contava com um emprego razoável em um banco particular.
O homem agradeceu o empréstimo e, a pretexto de procurar o tratamento no exterior, desapareceu durante alguns meses. Viajou, curtiu a Europa, a Ásia e a África. Gastou muito dinheiro dos milhões acumulados pelo prêmio. Passou pelas Américas para dar um fundinho de verdade ao encontro que tivera com os parentes. Mas, como nada é para sempre, retornou. Estava saudável, corado, forte e bem disposto.
Reuniu novamente os parentes que estiveram presentes à primeira reunião. Iniciou a conversa dizendo que o dinheiro que tomara emprestado serviu para dar o início à viagem com que sonhara a vida inteira. Confessou também que jamais estivera doente e gozava plena saúde. O mais perto que havia chegado de um hospital fora para fazer um curativo no pé após ter se machucado na tentativa de praticar algum esporte radical. Dessa viagem trouxe um cartão postal para cada um dos parentes, lembrancinhas, perfumes para as mulheres, brinquedinhos para os meninos, e alguns eletrônicos. Para os homens trouxe caixas de chocolates. E, para o primo distante, aquele que lhe havia emprestado o dinheiro, entregou um envelope. Ao abri-lo o primo deparou com um polpudo cheque e a confissão da armadilha.
O dinheiro da loteria rendera muitos juros e uma amizade que levaria para o resto de sua vida.
O primo ficou para o abraço final. Os parentes, encabulados, deixaram a sala cabisbaixos…

Junho 2011.

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