Archive for the ‘familia’ Category

PostHeaderIcon Momentos mágicos

Não ouvi, nem vi. Contaram-me. O diálogo foi transposto em forma de monólogo a duas vozes, uma falando, só uma falando em um processo de comunicação sem o outro. Melhor: de um lado, o narrador que me contou a história; de outro, um ouvinte. Ambos convictos de suas respectivas necessidades: a de relatar e a de entender e acompanhar o caso.

A personagem é uma velha conhecida. Não tão velha, pois completou recentemente seis anos. Uma garota viva, alegre, curiosa que chegou ao momento mais mágico da vida: encontrar o significado das palavras escritas e descobrir que elas podem ser lidas e, melhor, entendidas, criadas e recriadas ao sabor das leituras e da imaginação. Verdadeiro milagre…

Às voltas com o processo de alfabetização, que já vinha sendo construído em anos anteriores, lá pelas tantas descobriu que havia a letra cursiva e a letra imprensa, a de forma, essa última já costumeira em sua pequena vida escolar. A letra cursiva, no entanto, despertou algo próximo da perseguição em busca da perfeição. Bordado o a, chaga-se ao z em um caminho de voltas e trejeitos que mais a encantavam e faziam brilhar dois olhos espertos, emoldurados por um rosto redondo em que esvoaçavam cabelos lisos, escorridos e castanhos.

Continuando. A jovenzinha queria porque queria escrever, dar vazão às suas mais recentes necessidades de expor ao mundo suas virtudes. Escrever…

Colocou sobre a mesa da sala uma folha de papel novinho e uma coleção de lápis preto. A professora havia dito que lapiseira não era apropriada para o início da escrita. Então, após a execução da tarefa, a menina chamou a mãe e disse com a propriedade de um doutor

– Quero que você diga como se escreve M E L A N C I A

A mãe pôs-se a dizer “M”, “E”, “L” e foi logo interrompida como se estivesse cometendo o maior sacrilégio de todos os tempos. Furiosa, a menina disse:

– Não, mãe, não quero assim… Eu quero que você me dite em letra cursiva”

E assim foi dito.

Celia A. N. Passoni

 

PostHeaderIcon Tarsila no céu

A cachorra chamava-se Tarsila, nome dado a ela em homenagem à filha mais ilustre de Capivari. Inteligente, ágil e, sobretudo, simpática, acompanhou o casal desde o começo do namoro. Foram dias felizes. Passeavam, corriam e brincavam, enquanto o tempo passava. E o tempo passou. O casal teve dois filhos e a família conviveu em paz, felizes, como os adesivos de carro.
Desde pequenos, os filhos faziam-na de trampolim, de travesseiro, de bola de futebol, de abanador. Puxavam suas orelhas, deitavam sobre sua barriga, faziam aqueles carinhos meio marotos, que só os pequenos sabem fazer. Tarsila mantinha a calma. As crianças eram sua prole, e ela as amava. Mas ela foi envelhecendo, perdeu o pelo, teve tumor e, para completar, uma doença na pele. Já quase não se levantava, apenas cheirava. Seus olhos baços não contemplavam mais os entes queridos. Estava quase cega. Mesmo assim, encontrava forças para fazer alguma graça, saudar os espevitados quando chegavam da escola, no final da tarde. Marido e mulher preocupavam-se com um final que se aproximava, mas mantinham-na sob constante observação, veterinário, banhos e tosa, alimentação especial…
Tarsila gostava do final da tarde, era o seu momento, o sossego, a calma, a felicidade tranqüila no tapete da sala. A velhice foi crescendo dentro da vontade de viver e a morte chegou, irremediavelmente.
As crianças ouviram pela segunda vez a palavra fatídica. A velha bisa foi embora algum tempo antes, com seus noventa e tantos anos. A cachorra foi plácida e sem sofrimentos em uma tarde fresca. Foi sacrificada no veterinário.
A mãe procurou explicar a morte da melhor maneira possível, disse que a cachorra gostava tanto da bisavó que foi ao encontro da velha no céu. Duas velhinhas queridas estavam lá em cima, além das nuvens, além do azul.
O menino não se conformou. Já com saudades e com um bocadinho de revolta tentou argumentar com o pai, homem alto e forte, por que a deixaram subir. Tão sábios e inteligentes, deveriam tê-la segurado pelas pernas, já que o rabo havia sido cortado quando Tarsila nasceu.

Curitiba abril 2011

PostHeaderIcon Coração despedaçado

Houve um contratempo. A cirurgia marcada para quinta-feira foi antecipada. Seria realizada na terça-feira e era necessária a internação do pai às 7h. Como as crianças precisavam de atenção e a mãe estava às voltas com o pai, a avó deslocou-se rapidamente. Chegou na segunda-feira. Dormiu com os netos, apertada no meio da cama, pois nenhum deles se dispunha a abrir mão de um lado da avó querida.
Feitas as trâmites de praxe, a cirurgia transcorreu serena e após breve período de recuperação, foi a vez de o pai voltar para casa. Festa, felicidade total. Agora a família estava novamente reunida: mãe, pai, Laura e Henrique. Havia ainda um outro e mais recente membro na família, um cão (zinho) chamado Bolt.
Tudo estava dentro do previsto e como as coisas transcorriam calmamente não havia mais necessidade da avó. Ela partiria na sexta, no voo das 10h e as crianças ficariam divididas entre as atenções dos pais e a escola. A avó materna chegaria na mesma hora em que a avó paterna tomaria o avião.
Madrugou e lá pelas horas curtas da manhã, houve um contratempo – o pai precisou retornar ao hospital. Um ponto da cirurgia rompera e seria necessária nova internação. Em consequência, a avó paterna não voou, a avó materna chegou e os netos não conseguiam entender bem aquela proliferação de avós em pleno período de aulas. Uma verdadeira dádiva dos Céus!
Ao ver que a avó paterna não havia partido e a avó materna chegando, Henrique exultou. Chegou perto das duas e, sem nenhum constrangimento, declarou seu amor incondicional por ambas
– Vós, quando vocês partem, meu coração fica despedaçado. Só depois junto os caquinhos. Henrique pronunciou despedaçado apreciando cada um dos sons que eram lapidados por sua boca.
Em nenhuma língua do mundo uma declaração de amor poderia ter sido feita com tanta magia. Nós avós, somos gratificadas com a espontaneidade e o carinho de crianças maravilhosas, sem as quais o mundo perderia sua graça.

Abril 2011

PostHeaderIcon Argumento de autoridade

A menina tinha um problema alérgico. Algumas vezes passava meses sem ter vergões, mas, eles retornavam triunfantes depois de passarem amortecidos. Foi o que aconteceu na quarta-feira.
O tempo estava seco. A umidade do ar pouca, quase beirando o desértico. Começou com um vergão no olho. Depois espalhou-se pelo corpo. A hipótese de conjuntivite já havia sido descartada quando apareceram os vergões pelo corpo. A hipótese de escarlatina havia sido descartada porque não havia outros sintomas. Nada de febre, nada de indisposições, sem qualquer alteração na rotina diária.
Como não havia risco de contágio, a menina foi para escola. Mesmo porque já havia passado o pior da vermelhidão. Somente o olho apresentava os resquícios do problema.
Brincou, fez compenetrada a lição, conversou com os amigos, fez as atividades de rotina e eis que, bem na hora do recreio, a vermelhidão voltou com toda sua força.
A professora, preocupada, chamou uma inspetora de alunos, para levá-la até a coordenadora e, assim, tomar as devidas providências. No caminho para a sala da temida Professora Glória, a inspetora, Dona Ana Sueli, foi conversando com a menina, procurando ver o que ela estava sentindo e se havia algum outro mal-estar.
A mãe foi chamada e ambas dirigiram-se ao pronto socorro. Diante do quadro aparentemente grave, o medico apareceu rapidamente, fez os exames de rotina e deu a primeira dose de um antistamínico e diagnosticou: ALERGIA.
A menina olhou bem para o médico e constatou que o diagnóstico dele nada acrescentava à sua expertise uma vez que a DONA ANA SUELI já lhe havia dito que era um caso tipico de alergia.
Nesse momento, a mãe percebeu o que era “argumento de autoridade…

Setembro 2011

PostHeaderIcon Sorte grande

Não chegou a mim diretamente. A história foi relatada por uma amiga que disse ter ouvido no noticiário de uma rádio ou visto na TV. Mas reconto, colocando um pouco de minha imaginação para dar sentido à história.
Loteria: alguém sempre ganha. Um homem remediado para pobre comprou, com o resto de troco do supermercado, um bilhete, inteirinho, de extração especial, prêmio dobrado. Por pura sorte o bilhete foi premiado.
Para não alardear o fato, o homem reuniu os parentes para comunicar algo muito ruim. O termo utilizado não foi muito bom, já espantando cunhados e primos mais distantes.
Com poucos presentes – dois tios, dois sobrinhos, dois filhos e dois primos e a ex-mulher – comunicou que estava gravemente enfermo e, para dar prosseguimento a alguns exames que o convênio não cobria, precisava de dinheiro emprestado. Na verdade, estava à procura de algum tratamento de ponta nos Estados Unidos.
Os parentes entreolharam-se e, um a um foram dando desculpas: a escola dos filhos, os livros da filha, as roupas, os sapatos, o custo de vida… e outras coisinhas mais.
Somente um dos primos, nem muito chegado a ele, prontificou-se a emprestar o dinheiro necessário para a passagem. Dois mil dólares e alguns quebrados. Nem rico, nem pobre, o parente só estava sendo prestativo. Prontificou-se a pagar não todos os exames, nem custear toda a viagem, mas oferecer alguma coisa que pudesse servir de apoio para a aflição do primo de terceiro grau. Terceiro grau!, sim. Ele era filho de um primo distante e, embora tivesse mulher e filho, contava com um emprego razoável em um banco particular.
O homem agradeceu o empréstimo e, a pretexto de procurar o tratamento no exterior, desapareceu durante alguns meses. Viajou, curtiu a Europa, a Ásia e a África. Gastou muito dinheiro dos milhões acumulados pelo prêmio. Passou pelas Américas para dar um fundinho de verdade ao encontro que tivera com os parentes. Mas, como nada é para sempre, retornou. Estava saudável, corado, forte e bem disposto.
Reuniu novamente os parentes que estiveram presentes à primeira reunião. Iniciou a conversa dizendo que o dinheiro que tomara emprestado serviu para dar o início à viagem com que sonhara a vida inteira. Confessou também que jamais estivera doente e gozava plena saúde. O mais perto que havia chegado de um hospital fora para fazer um curativo no pé após ter se machucado na tentativa de praticar algum esporte radical. Dessa viagem trouxe um cartão postal para cada um dos parentes, lembrancinhas, perfumes para as mulheres, brinquedinhos para os meninos, e alguns eletrônicos. Para os homens trouxe caixas de chocolates. E, para o primo distante, aquele que lhe havia emprestado o dinheiro, entregou um envelope. Ao abri-lo o primo deparou com um polpudo cheque e a confissão da armadilha.
O dinheiro da loteria rendera muitos juros e uma amizade que levaria para o resto de sua vida.
O primo ficou para o abraço final. Os parentes, encabulados, deixaram a sala cabisbaixos…

Junho 2011.

PostHeaderIcon Para Renato

Sempre que a tragédia bate em nossa porta, existe uma compensação, pois a vida respira respeitável do outro lado. Assim é com a morte. A fatalidade em si da perda não é ultrapassada pelos restinhos de espontaneidade e alegria que percorrem os poucos caminhos dos quais podemos escapar do labirinto.. Esses poucos caminhos são recuperados pela memória: a voz, o riso, os cabelos, a conversa na hora do jantar, a alegria do casal, o saber da chegada, enfim, pequenas coisas somam-se a outras e se reconstrói a vida.
Sabe-se racionalmente que não há sonhos, não podem existir desabafos que recuperem as forças e tornem reais as imagens, mas existem momentos de descrença na verdade da morte e se dribla o inexorável, preenchendo com vaga realidade o vazio da perda
Não se pode amparar os pais, não se pode exprimir com palavras os sentimentos diante da dor, porque não existem formas de amparar o insólito, não existe conforto diante da tragédia. O riso da criança? Um abraço? Ou somente o conforto da presença? O destino sempre surge, pensando ou não pensando nele.
Relembra-se a pergunta sobre gramática, instigante que só um cérebro em ebulição poderia formular. Relembra-se alguém contando a história da “boca de jacaré”, do “latido do cão grande e do pequeno”, enfim, um pouquinho
da infância em companhia dos que se separaram pela vida, por um ou outro motivo.
Destino. Alguns dizem que é possível pensar racionalmente o destino e retraçar o roteiro da vida, escolhendo caminhos pela opção, não pelo acaso. Talvez? Mas, crente ou descrente, racional ou não, por escolha ou não, a morte bate sem piedade em todas as direções e dita sabiamente sua sentença, sem apelos, sem desculpas, sem postergar nem adiantar. E nós, humanos, o que fazemos é refugiar na pequena revisão dos fatos, tentar explicar o inexplicável para, finalmente, deixar de pensar insistentemente em uma só certeza e buscar esgalhos de lembranças em sítios ainda férteis.
A vida continua. Só que fica aquela lacuna dolorida. Mesmo quando se vê o tempo amortecer a dor, fica uma saudade dolorida que teima acordar a memória altas horas da noite, quase na madrugada fria de um dia qualquer de setembro. E fazer as mãos procurarem uma fotografia solta na caixa de imagens.

Junho 2011

PostHeaderIcon A varinha do Harry

Lara é uma adorável criança. Feliz, simpática, bonita, com seus dois olhos negros por detrás das lentes dos óculos que foi obrigada a usar. Tão jovem, carregando o peso dos um ponto e tanto de miopia.

Os cabelos cacheados emolduram o rosto claro da menina. Corre, brinca e sorri sempre, olhando de soslaio para a porta do pátio da escola, para ver quem chega, quem sai, se é ou não algum conhecido.

Nas férias de julho, ganhou dos pais uma viagem: a viagem de seus sonhos, o presente mais desejado de todas as crianças nessa faixa etária.

Não queria perder um segundo do presente mais maravilhoso que já ganhara como antecipação do “Papai Noel”. A família, com exceção do irmãozinho mais novo, foi para a Disneylândia.

Lara não queria perder nada, nenhum brinquedo, nenhum show, só respirava porque era realmente necessário.

Entre tantas diversões, passou pela seção de mágica, montada especialmente para aproveitar o sucesso do filme, onde havia representações e demonstrações do poder de Harry Potter e sua turma. O mágico contratado fazia aparecer e desaparecer objetos ao simples toque de sua varinha. A varinha do Harry, aos olhos de Lara, se tornou a personificação da magia. A coruja, as roupas, os chapéus, os lenços, nada era tão mágico como a varinha.

Ao final do espetáculo, como sempre apraz ao espírito comercial dos norte-americanos, há a necessária passagem pela lojinha. São ofertados milhares de produtos relacionados ao tema e, diga-se de passagem, dos mais variados preços, para todos os bolsos. Entre os itens mais acessíveis e, por isso mesmo mais procurados, estavam as varinhas do Harry.

O pai de Lara permitiu a compra de uma e a menina passou a escolher a melhor, a que seria sua varinha. Testou uma e disse “– Essa não!”. Testou outra e também disse “– Essa não!” outros e outros testes foram feitos sempre com a mesma recusa: “– Essa não!”. As varinhas iam mudando, ganhavam adereços novos, cores diferentes, formatos diversos, com alguns artefatos como transparência, brilho e luz. Mas quaisquer que fossem elas, Lara recusava uma a uma, até que o pai, já meio impaciente, perguntou por que ela não escolhia uma.

Lara olhou para ele com aquele olhar questionador, atestando a ignorância que o pai demonstrava nas artes do além e disse:

– Nenhuma delas funciona!

A questão estava decidida. Levaria somente uma caixa de mágica.

PostHeaderIcon Filosofando

O som dos diálogos ficava mais nítido na medida em que me aproximava da cozinha. Não se distinguia perfeitamente quem falava com quem, mas tornavam-se audíveis duas vozes que sussurravam baixinho, certamente para não acordar os donos da casa.

Quando foi possível discernir com clareza, ouvi uma conversa que girava em torno de Papai Noel. Com a proximidade do Natal, tudo era propício para se tentar arrancar do velhinho qualquer presente, por menor que fosse.

A primeira voz, convicta, falava

– Não, não acho que ele exista.

A outra respondia

– Existe sim. Todo ano ele vem nos dizer “Bom Natal!”. Ontem mesmo eu o vi pela televisão.

– Se fosse verdade, dizia a primeira, ele teria me dado algum presente no ano passado. Fiz até lista e só perdi meu tempo.

– Ele não lhe deu presente algum porque você é muito ranheta, não foi bem comportada, fala demais. Vai ver que você só diz asneiras.

– Como?! – interrompeu irritada a primeira voz – eu não menti, não falei asneiras coisa nenhuma. Nunca fiz mal a ninguém.

– Você parece o João, ele também não acredita em Papai Noel. Ele disse que Papai Noel é o pai da gente.

– Concordo com o João. É isso mesmo. Papai Noel é o pai da gente. Como meu pai morreu, “necas” de presente. Fico lambendo sabão todos os anos.

A conversa se estendeu por mais algum tempo. Acalorada até eu entrar na cozinha. Assim que me viram, as duas me fizeram a pergunta fatal, para eu responder com toda sapiência que me cabia, talvez por ser eu a dona da casa.

Tomei a liberdade de não responder, para que elas não perdessem as ilusões. Afinal, a conversa da cozinha era entre duas respeitáveis senhoras, uma beirando os sessenta e outra já próxima dos quarenta. Aliás, o João citado na conversa é o marido de uma delas.

PostHeaderIcon Singelezas

Todos os dias é dia dos pais, mas na data comemorativa a festa é maior. Os filhos levantam cedo, acordam o pai, abraçam-no, beijam-no e prometem ser os melhores na escola, no esporte, nos muitos afazeres – pelo menos são promessas válidas até o final do dia dos pais – vinte e quatro horas ininterruptas.

O caso aconteceu em certo domingo de agosto. O menino havia feito um presente especial na escola, uma caixa de madeira, um desenho de carro – ele adorava carros – enfeitado com tinta de diversas cores e contornado de canetinha em traços frágeis e indecisos, tal como costumam ser as mãos pouco firmes de um garoto de cinco anos.

O dia amanheceu tranquilo, com cinco filhos em escadinha pulando na cama adormecida. Eram abraços daqui e beijos da única filha do casal, pois os meninos se recusavam a dar beijos em homens.

Alguns pacotinhos embrulhados com celofane e amarrados com fitas de presente eram jogados sobre a barriga ainda adormecida. “Feliz dia dos pais”, ainda cantavam uma música preparada pela escola e davam mostras de amores incontidos por meios de frases previamente decoradas.

O menino então entregou sua caixinha, um cartão com gravata – mesmo sabendo que o pai se recusava ao enforcamento compulsivo – e esperou ansiosamente os elogios ao presente que acabara de dar.

O pai ficou encantado com o mimo, elogiou o desenho do carro, a pintura, a caixinha. O filho aguardava o presente dos outros, cada folha de celofane que chegava era aberta com amor pelo superpai.

A família se reuniu para o café da manhã. Então, filhos e pai programaram um passeio pela nova linha do metrô – isso só aconteceria se a mãe fosse junto – planejaram um cinema no final do dia, um almoço caseiro, já que em dias de comemoração a família nunca vai a restaurante, sempre lotados e filas quilométricas de pais geralmente esquecidos no todo dia e lembrados em datas especiais.

Pouco tempo se passou e o menino se aproximou do pai, vendo que seu presente – tão maravilhoso e elogiado – fora abandonado entre os outros.
Mais do que depressa, sem deixar margens para a dúvida da afronta recebida, o menino cochichou no ouvido do pai. Ele estava confiscando o presente, pois sabia que para ele o valor da caixinha era redobrado. Para finalizar, disse alto e em bom tom, que seu pai não merecia aquela sua caixinha. Tomou-a do pai e guardou-a entre seus pertences mais preciosos e, por isso mesmo, mais queridos.

Passados tantos anos, revi o mimo entre os antigos brinquedos. Algo tão singelo que merecia um registro especial. Aqui está o que pude me lembrar daquele momento saudoso que se perdeu no tempo e foi revivido por um achado. Bendita sejam as arrumações de velhos armários, baús antigos e caixas esquecidas em maleiros de guarda-roupas.

PostHeaderIcon Curujices de mãe

Desta vez duas pequenas histórias escritas pela mamãe da Laura e do Henrique :)

O Henrique é uma criança muito gostosa e cada partinha do seu corpo é muito especial…seus olhos além de lindos são expressivos…pelo seu olhar a mamãe já sabe se ele está bem…se vai pegar um resfriadinho…se está com sono… está feliz ou até triste … Mas tem uma parte que é demais…seu bumbum redondinho…não dá pra não apertar ou dar um tapinha de amor…
O Henrique tem um amigo inseparável em sua sala… são muito parecidos fisicamente…principalmente quando estão de costas…muitas vezes são confundidos… Um dia quando a mamãe chegou para buscá-lo na escola ele e o amigo estavam fazendo xixi…a mamãe ficou em dúvida por um momento mas logo olhou o bumbum redondinho e descobriu quem era o Henrique…na mesma hora a professora entrou e as duas disseram ao mesmo tempo: consigo diferenciá-los pelo bumbum…

A Laura é toda charmosa e muito arteira… quando as covinhas aparecem na sua bochecha é sinal de que alguma arte está por vir ou pior já foi feita… ela tem apenas 2 aninhos e já fraturou braço , dente… vive dando sustos na mamãe… Quando a mamãe vai dar bronca…ela logo pões as covinhas em ação…um sorrisinho maroto… e a bronca fica bem mais leve… É difícil resistir a todo esse charme! Um dia desses a mamãe chegou do trabalho chamou pela Laura e apenas uma cabecinha linda com duas covinhas na bochecha apareceu na porta do quarto…a mamãe chamou: vem Laurinha dar um beijinho na mamãe…e as covinhas ficaram mais evidentes… a mamãe insistiu…vem minha linda!!! Então ela saiu com sapatos de salto vermelho…bolsa e uma camisola toda retorcida no corpo e disse “sou a mamãe!!!”

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